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Violência de mulher para mulher

B. M. S. 23 anos – SP

“Sou lésbica, totalmente assumida.

No dia 21 de agosto de 2014 atravessei um limite que nunca deveria ser ultrapassado, nem por mim, nem por ninguém que se considere racional. Esse específico dia começou de forma rotineira, morava com minha namorada e, antes de sair para ir trabalhar, pedi para que ela lavasse uma das minhas roupas que estava suja. Sai e quando retornei, notei que a roupa permanecia do mesmo jeito, suja e exatamente no mesmo lugar. Aquilo me incomodou profundamente e deixei o machismo tomar conta de mim e acabamos discutindo por causa de uma simples peça de roupa suja.

O restante do dia decorreu normalmente. Quando chegou a noite, fomos a uma festa. Nessa época eu fazia uso de cocaína e, é claro que, eu já havia usado para me “divertir” melhor nessa festa. Acabamos ficando pouco tempo nessa tal festa, que não estava muito legal e decidimos voltar pra casa. Fomos caminhando e, quando já estávamos perto de casa, encontramos uma garota que conhecíamos de vista. Foi aí que tudo desandou… O modo como ela olhou pra minha namorada, o olhar de desejo e perversão me atingiram. Aquilo despertou minha raiva. Me virei e ia voltar para tirar satisfação com a garota, mas minha namorada, tentando me acalmar, me segurou. Sentir as mãos dela me puxando para longe daquela menina aumentou ainda mais minha raiva. Me virei e dei um tapa na  minha namorada e falei que não tentasse me parar, pois seria pior. Me virei novamente para ir falar com a menina, mas minha namorada, convencida de que seria capaz de me conter, tentou mais uma vez me parar. Foi a pior coisa que ela poderia ter feito naquele momento. Fiquei cega… Voltei toda a minha raiva, ira e insatisfação contra ela. Tudo de pior que eu sentia naquele momentos se materializou em socos. Acertei seu rosto e seu corpo e quando somente socos não me bastaram, vi um pedaço de madeira bem próximo de mim… Agarrei o objeto como se minha tola razão tivesse se materializado naquilo, e desferi mais golpes contra ela. Naquele momento, cada golpe fazia eu querer dar outro golpe, incessantemente. Quando minha descarga de adrenalina e raiva terminaram eu fui embora, me sentindo forte, vitoriosa e cheia de orgulho. Deixei no chão uma namorada extremamente machucada… E, além de qualquer humanidade em mim, virei as costas e fui me divertir. No dia seguinte ameacei acabar com a vida dela caso me denunciasse ou contasse para alguém. Claro que pouco tempo depois terminamos o relacionamento.

Aquele limite que cruzei, aquele instante que eu poderia ter recuado, que poderia ter pensado antes de agir… Nunca me assombraram. Eu estava tão absorvida em mim mesma, que nunca havia pensado naquele dia. Mas chegou o momento em que a vida me deu a oportunidade de reviver e falar sobre isso com essa minha ex. Nos encontramos, conversamos… Conversamos muito sobre tudo o que aconteceu. E foi durante essa conversa que entendi realmente o que eu havia feito.

Olhando para trás, hoje, eu não teria cruzado aquele limite. Deveria ter conversado, ouvido, falado, quem sabe até, ter deixado de lado. Voltaria no tempo e mudaria isso… Mas como não há essa possibilidade, entreguei novamente meu coração para ela. Voltamos a namorar, mas somos pessoas diferentes… ela carrega algumas cicatrizes que eu causei a ela e outras tantas que adquiriu no tempo que estivemos separadas. Eu carrego também as minhas cicatrizes, as que eu mesma de impus e as que minhas escolhas me marcaram.”

A cada dia, cada momento que vivemos, cada atitude que tomamos, nos faz sermos quem somos e constrói nosso sucesso ou nossa derrota. Questiono sempre o ser humano diante de suas ações. Mas quem sou eu para julgar? Quem é você, para julgar outras pessoas? Que esse depoimento faça acender a razão na mente de qualquer agressor em potencial… Não cruze esse limite, por favor.

 

Me chamo Rose Peneireiro, nasci em 02 de abril de 1983, em Santos/SP. Venho de uma família simples, onde fui criada com muito amor e carinho. Sou viciada em leitura, adoro uma boa música, aprecio bons papos e bons amigos. Penso que todos precisamos de um pouco de loucura para conviver e sobreviver a esse caminho insano que trilhamos e vivemos. Adoro as palavras, que nos definem e de certa forma nos limitam. Obrigada pelo tempo desprendido a leitura do que habita minha mente.

Comentários

  • Luciana Peneireiro
    novembro 5, 2017

    Violência entre mulheres, pra mim era algo que não existia, até eu sofrer uma agressão também no meu primeiro e infernal relacionamento. Esse texto é para refletir muito e me fez pensar em como podem existir mulheres machistas e ignorantes? Mais amor e menos agressão física e emocional, é disso que o mundo precisa.

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