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Violência – Amor

C. F. 21 anos – SP

Era um dia normal, estava de folga do trabalho, então acordei mais tarde, a manhã correu normalmente, almocei e logo depois do almoço meu namorado foi me ver. Tudo como de costume.

Estava um dia quente e resolvemos ver um filme na TV. Por conta do calor acabamos deitando no chão pois achamos q o sofá estava muito quente. Um irmão estava trabalhando e o outro irmão junto de minha mãe haviam ido até a casa de parentes passar o dia lá. O filme era entediante e acabei me virando de costas para o meu namorado e adormeci assim. Senti ele passando a mão pelo meu corpo, mas estava muito sonolenta, então voltei a dormir. Quando acordei novamente eu estava de bruços, sentia a mão dele pressionando minha cabeça contra o chão, o peso do corpo dele em cima de mim, o pênis dele me penetrando repetidamente.

Falei: Para, não quero.

E a resposta veio no meu ouvido:

To quase gozando amor, pera aí.

Sou pequena, ele era muito grande e não consegui me mexer, na posição que eu estava não tinha ponto de apoio para me levantar com ele em cima de mim. Juro que tentei… Mais de uma vez eu tentei… Mas ele continuou… Não posso dizer quanto tempo durou, pois em dado momento, simplesmente me desliguei. Foi como se minha mente fugisse, uma vez que meu corpo não podia fazer isso. Quando ele acabou, se levantou, foi até o banheiro, se recompôs e voltou pra sala. Eu ainda estava na mesma posição,  estática, vazia de mim mesma. Ele me deu um beijo no rosto e disse q tinha q ir. E ele foi embora, simplesmente saiu.

Fiquei horas deitada sem me mexer. Vi a tarde acabar e pensei que não podia ficar ali, meus irmãos e minha mãe logo chegariam. Como em câmera lenta, me levantei, tomei um banho que não faço idéia quanto levou, a maior parte foi parada embaixo do chuveiro. Eu sabia que algo estava errado, mas não sabia o que era exatamente, acreditem ou não, eu não havia me dado conta de que havia sido estuprada. Sai do banheiro, me vesti, liguei para um amigo que morava em SP e combinei de passar o fim de semana na casa dele. Naquele mesmo dia, peguei alguma roupa, avisei minha família e peguei o primeiro táxi q achei até a rodoviária. Voltei alguns dias depois é terminei o namoro, é claro.

Mas o incrível, é que somente anos depois foi q me dei conta do que eu havia passado. Por muito tempo eu ignorei esse dia da minha vida, quando esse fantasma teimava em aparecer eu corria para longe dele. Me ocupava, lia, ouvia música… Sempre buscando não deixar nenhum espaço em branco. Acreditava que sem espaços em branco não haveria aquela sensação de que algo estava errado. Foram anos de inquietação e de barulho feito por mim mesma para calar aquele momento indizível da minha vida.

Um dia, que eu não sei dizer exatamente qual foi. Lendo sobre estupro, li um depoimento que me fez reviver aquele dia. O que a menina descrevia se parecia muito com o que eu havia vivido. Terminei de ler o artigo. E então me dei conta. Me senti violada, subjugada, suja, pequena, culpada, vazia…

Nunca contei, nem falei sobre isso com ninguém. É a primeira vez que externo esse acontecimento. Depois que me dei conta, refleti muito, racionalizei cada instante que vivi. Depois que me dei conta, revirei cada centímetro dentro de mim, procurei culpas, falta de demonstrar que não queria, razões para ser punida daquela forma… Enfim… Dei ouvidos a todos pensamentos insanos que se possa imaginar. Levei anos em um silêncio doentio, que dilacera a alma é que sufoca a felicidade até conseguir admitir que a culpa não foi minha e que eu não pedi para ser violentada! Vocês não tem noção do quanto foi libertador afirmar isso pra mim mesma. Foi mais que libertador, me deixou leve, consciente de quem sou, do que vivi, do que sinto e do que quero para mim.

 

Me chamo Rose Peneireiro, nasci em 02 de abril de 1983, em Santos/SP. Venho de uma família simples, onde fui criada com muito amor e carinho. Sou viciada em leitura, adoro uma boa música, aprecio bons papos e bons amigos. Penso que todos precisamos de um pouco de loucura para conviver e sobreviver a esse caminho insano que trilhamos e vivemos. Adoro as palavras, que nos definem e de certa forma nos limitam. Obrigada pelo tempo desprendido a leitura do que habita minha mente.

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