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O casamento gay do ano

“Não pode existir uma ‘noiva’ que tenha dado mais trabalho do que eu… Como noivo, é claro”. Assim começou o papo com Carlos Tufvesson, ex-estilista e atual coordenador da pasta da Diversidade Sexual da prefeitura do Rio de Janeiro, que está a uma semana de sua festa de casamento com o arquiteto André Piva, seu companheiro há 16 anos. Eles tentaram fazer na Vara de Registro Público a conversão da união estável para casamento, mas a Vara negou o pedido, contrariando decisão do STF. Ainda que o recurso não seja julgado a tempo, o casal será “abençoado” pela juíza de paz Maria Vitória, que oficializou as uniões de celebridades como Glória Pires e Orlando Morais, Carolina Dieckmann e Marcos Frota e de Jayme Monjardim e Tânia Mara. Maria Vitória, inclusive é uma das melhores amigas da estilista Glorinha Pires Rebello, mãe de Tufvesson — as duas estudaram juntas no Instituto de Educação (ISERJ).

A data foi marcada propositalmente para o dia 14, data do aniversário de Piva, seu marido há 16 anos, e a cerimônia será no Museu de Arte Moderna, no Rio. A família toda — tanto de um lado quanto do outro — está empolgadíssima, mas ninguém chega aos pés de Glorinha, que sempre “inventa alguma nova história” para o festão, e sua avó, Maria Luiza Pires Rebello, que vai ser madrinha de honra. “Todo mundo que conhece a minha vida sabe quanto eu sou ligado à família e quanto a presença da minha avó é importante. Ela sempre viu a gente como um casal e na cabeça dela, não dá pra entender o motivo de não concretizar isso. E olha que minha avó é supercatólica”, diz Tufvesson.

A aliança, confeccionada pelo designer Ricardo Filgueiras, vai permanecer a mesma que eles já usam. “Mas agora vamos mandar imprimir a data da cerimônia”. E a lua de mel? “Não vamos ter por enquanto, porque eu trabalho logo no dia seguinte, por conta dos preparativos do Dia Mundial de Combate a Aids, no dia 1º de dezembro”. O patrão de Tufvesson, o prefeito Eduardo Paes, já avisou que não vai poder estar presente — além de ser a data de seu aniversário, é também a data do aniversário da sua filha e a família Paes sempre festeja fora do país. A entrevista vem impressa em nossa revista ÉPOCA que chega hoje às bancas.

Por que casar depois de 16 anos juntos?
Sou solteiro até hoje, mesmo passando tantos anos da vida ao lado do André. Ele é meu amigo? Divide aluguel comigo? Não… Isso é uma falsidade ideológica. Ele é meu marido e a decisão do Supremo Tribunal Federal não obriga ninguém a casar. Lutei muito tempo pra que a gente tivesse esse direito, o reconhecimento do estado de cônjuge. Me conforta saber que se eu sair daqui e for atropelado, o André não vai ser tratado no hospital como um visitante, um amigo e sim como meu marido. Isso é fundamental porque é apenas a expressão da verdade. Atualmente os gays lutam para ter o direito de se casar enquanto os héteros estão se separando. Minha mãe foi casada três vezes e nenhuma durou mais de dez anos, assim como várias amigas.

Como estão os preparativos?
Estou totalmente envolvido nisso, mas é a primeira vez que eu organizo um casamento – fazia só as noivas – e digo que casar é fácil, mas fazer lista é a pior coisa. Fui criado por mulheres, trabalhei para mulheres fortes a vida inteira e me dei conta de que, por incrível que pareça, é absurda a maneira que anulam a mulher no convite colocando o marido à frente. O que é isso? No meu casamento o nome da mulher vem primeiro, porque acho uma questão de educação. Aliás, na maioria das vezes, eu conheço a mulher e não o marido. Hoje, a mulher trabalha, é profissional e essa coisa de dondoca acabou. Antes de mudar o esquema com a Thaïs (de Carvalho Dias, a cerimonialista) parecia uma festa gay, só com machos.

O próximo passo seria a adoção?
O conceito de família não está vinculado à procriação. Se alguém tem que pensar em procriação é em como contê-la. Eu luto para que as pessoas tenham direito à adoção, por mais que eu não queira adotar.

E como está a repercussão entre os amigos?
Eu tenho notado um carinho enorme dos nossos amigos. Engraçado que eu trabalho no mercado de casamento há bastante tempo, e todo mundo só liga pra mim perguntando sobre a roupa que deve usar. Não sou o estilista desse casamento, sou o noivo, entendeu? (risos). E nem quero saber da minha roupa. Na boa, até pedi para minha mãe fazer a roupa da minha avó, para eu não ter que me preocupar.

O que a festa terá de diferente?
Eu nunca adiantei um desfile meu. Não dizia nem a cor que ia para passarela. Não estou antecipando nada, porque não estou vendendo convites para uma festa. As pessoas não vão pelo que vai acontecer, mas por nossa causa. Mas é óbvio que preparamos tudo com muito carinho. O mais complicado é fazer as pessoas entenderem que não é nada demais, é um casamento como outro qualquer. Vai aí um aviso: não se decepcionem porque não terá malabaristas, gogo boys e outras loucurinhas, porque nunca vi um casamento moderno ser incrível.

Qual o segredo de uma longa união?
Fui criado achando que o casamento tinha prazo de validade e tenho pavor do ‘para sempre’. Demorei oito anos para fazer uma tatuagem porque é uma coisa irreversível e hoje a considero um Viagra ambulante. O grande segredo do casamento é o dia a dia e sempre tratar o seu ‘marido’ como namorado. É estar enamorado todos os dias.

Entrevista: Bruno Astuto para Época

Fotos: Vera Donato