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No esporte, um caminho para o respeito à comunidade trans

Isabelle Neris conseguiu na Justiça o direito de disputar torneios femininos de vôlei

A cabeleireira curitibana Isabelle Neris é a primeira atleta transexual do Brasil autorizada a disputar competições oficiais de vôlei feminino. A decisão partiu da federação paranaense da modalidade. Uma revolução na vida de Neris. Nascida de uma família de classe média baixa, pais separados desde seu nascimento e criada pela mãe, “uma guerreira”, enfrentou, como milhares de transexuais, o preconceito e a rejeição da sociedade.

Aos 7 anos, por intuição, começou a perceber sua singularidade. “Não tinha idade para discernir o que era ser homossexual, mas notava que minhas preferências e escolhas não eram as mesmas dos meninos da minha idade.” Mesmo assim, a vida de criança era igual àquela de outros garotos. Brincava de futebol, subia em árvores, corria pelas ruas. Aos 11 anos, tinha certeza de sua homossexualidade. Aos 13, abriu-se com a mãe e encontrou um porto seguro. “A minha mãe sempre me deu apoio, jamais me recriminou. Devo a ela muito do que sou.”

O vôlei entrou na sua vida de forma casual. Aos 8 anos, ingressou em um projeto social em Curitiba coordenado por Bernardinho, ex-técnico da Seleção Brasileira. Durante dois anos, aprendeu os fundamentos do esporte e apaixonou-se. Na adolescência e juventude, sonhava em jogar profissionalmente. E passou a procurar clubes para se submeter às “peneiras”. Teve início um dilema.

Sua aparência franzina, feminina, os gestos delicados e até a força física incompatível com as necessidades de um atleta masculino invariavelmente resultavam na reprovação. Não bastasse, havia o preconceito explícito dos técnicos. “Ouvi dezenas de não. O conselho dos dirigentes de clubes era que desistisse, pois jamais iria ser jogador de vôlei.”

Um episódio marcou sua vida. Convidada por um amigo para uma partida informal, viu-se sozinha na quadra. “Os outros jogadores, todos homens, quando souberam que eu iria participar, se negaram a jogar. Não jogavam com veado.” A frustração quase a levou a desistir do sonho. Assumiu sua condição transexual e submeteu-se a uma cirurgia para implante de silicone nos seios.

Procurou um médico endocrinologista, e sob seus cuidados iniciou um tratamento para reduzir os índices de testosterona. Nos primeiros exames de consulta, ainda sem tomar hormônio feminino, ficou constatado que os porcentuais eram semelhantes àquela das mulheres. “Isso mostra que sempre fui uma mulher em corpo de homem.”

Formada em Radiologia, Neris seguia a vida profissional e, nas horas vagas, jogava vôlei com algumas amigas. Na quadra, era a melhor, espécie de líder. Percebeu que seu desempenho nas equipes femininas era muito superior àquele do tempo em que jogava nas equipes masculinas. “Não tinha a força de um homem, portanto, jamais poderia ser craque. No time feminino, onde todas nos equiparávamos, passei a me destacar.”

A equipe logo tratou de se inscrever na Federação Paranaense de Vôlei para disputar campeonatos e, quem sabe, com apoio e patrocínio, participar de torneios femininos. Havia um problema: a principal jogadora era homem. “Eu treinava com as meninas, mas nos dias de jogos ficava na arquibancada.”

O caminho foi buscar uma solução legal. Neris entrou com um processo na Justiça para ser identificada como mulher, com alteração de nome e gênero na Certidão de Nascimento e RG. Após um ano de tratamento intensivo com psicólogos e psiquiatras, obteve laudo médico que atestava “transtorno de gênero”. “Quando recebi minha Certidão de Nascimento e RG com meu nome de mulher, me senti realizada. Vencia uma enorme batalha.”

O passo seguinte foi entrar com o pedido de autorização para disputar os torneios e campeonatos femininos. Acabou aceita, desde que anualmente comprove por meio de exames laboratoriais ter baixo nível de testosterona. No início de março, os dirigentes a receberam na sede da federação para dar a notícia. “Poder jogar vôlei um enorme significado na minha vida. Apesar de todas as negativas, jamais desisti. Precisava vencer e chegar até aqui. Quero que meu esforço sirva de exemplos para tantas outras transexuais.”

Segundo o superintendente da Federação Paranaense de Vôlei, Jandrey Vicentin, o caso abre um campo de estudo que ainda será bastante discutido. “Não tenho dúvidas de que se trata de um divisor de águas no esporte brasileiro.” A decisão, diz Vicentin, é válida apenas para o Paraná. O dirigente acredita, no entanto, que o caso estimulará outras ações País afora e reforçará a busca por inclusão social. “Todos sabemos o quanto o esporte agrega, une.”

A cabeleireira nunca pediu nada além disso: “Somos seres humanos normais, comuns. Queremos ter o direito à vida, ao trabalho. Precisamos somente de oportunidades”.

Revista colaborativa LBT

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