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[In]contadas – Iniciativas na representação lésbica na editoração e produção literária

“[In]contadas – aquelas que não podem falar dizendo o que não pode ser dito” é uma publicação de 2016 da Editora Vira Letra. O livro organizado por Diedra Roiz e Manuela Neves conta com a participação de 15 autoras, cada uma contribui com um conto sobre lesbianidade, mostrando a diversidade das experiências de mulheres lésbicas com contos de fluência gostosa abordando relações afetivo-sexuais (como não amar?).

Encontrei esse livro através da Diedra Roiz, conheci seus escritos em 2016, apesar da mesma já publicar a muito tempo suas histórias sobre lesbianidade. Na coletânea além da Diedra, já conhecia o trabalho da Cidinha da Silva, cujo tema lesbianidade está presente desde seu primeiro livro de crônicas. Também conhecia a Wind Rose e a Manuela Neves desse mundão que é a internet. A iniciativa me encantou, apesar de conhecer outras coletâneas com esse mesmo foco na lesbianidade e bissexualidade feminina, essas coletâneas eram sempre zines, produções independentes e em poesia, raramente se encontra contos ou crônicas fora dos grupos na internet de autoras amadoras.

Falar em literatura lésbica é importante em um contexto em que não há representação LGBTQI, nem entre as autoras/editoras mais publicadas, nem mesmo entre as personagens. As organizadoras declaram na apresentação do livro: “Quando falamos sobre literatura com temática lésbica, não estamos falando da criação de um rótulo. Estamos falando da criação de uma representatividade. Não que exista uma identidade única para representar a mulher lésbica. É exatamente o oposto que queremos mostrar: a pluralidade de ser mulher e ser lésbica”.

Para além da nossa experiência buscando no Google, séries, filmes, literatura, mulheres históricas lesbianas. A professora da UNB Regina Dalcastagnè aborda a falta de representatividade em seu estudo “A personagem do romance brasileiro contemporâneo: 1990-2004”, ela analisou os perfis de personagens e autores publicados nos maiores grupos editoriais do Brasil, em relação à sexualidade apenas 3,1% dos personagens são homossexuais (infelizmente, incluindo lésbicas e gays) e 2,4 bissexuais (também mulheres e homens) contra 81% de personagens (femininos e masculinos) heterossexuais. Ainda segundo a autora, os personagens protagonistas na literatura brasileira e os autores são majoritariamente homens, brancos e heterossexuais.

Diante de todo esse quadro de invisibilidade frente às editoras e ao imaginário popular cheio de representações rasas ou negativadas pela heteronormatividade, iniciativas como o [In]contadas são muito importantes, olha essas autoras! Ana Paula Enes, Bel Mazzanti, Carla Gentil, Cidinha da Silva, Danieli Hautequest, Diedra Roiz, Hanna K., Inaê Diana, Jackie Rodrigues, Lis Selwyn, Manuela Neves, Márcia Rocha, Marina Porteclis, Priscila Cruz e Wind Rose. Não conhece o trabalho delas? O livro é uma delícia, dá para ler em uma única sentada ou ir sorvendo aos pouquinhos, conto por conto.

O livro é da Editora Vira Letra que se propõe a divulgar obras de autoras lésbicas em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e da PROAC/SP. Você pode ler gratuitamente no próprio site da editora: https://www.editoraviraletra.com.br/

Feminista, apaixonada por literatura, mas também entusiasta de outras linguagens artísticas, é pesquisadora mestranda na área de violência contra mulher e em autoria feminina na literatura pelo Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher da Universidade Federal da Bahia. Como escritora versa muito sobre amor e erotismo entre mulheres em suas poesias e contos. Vive em Salvador com sua felina chamada Elza.