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DARE: intersecções entre lesbianidade e negritude

“Dentro da comunidade lésbica eu sou negra, e dentro da comunidade negra eu sou lésbica. Qualquer ataque contra pessoas negras é uma questão lésbica e gay, porque eu e milhares de outras mulheres negras somos parte da comunidade lésbica. Qualquer ataque contra lésbicas e gays é uma questão de negros, porque milhares de lésbicas e gays são negros. Não existe hierarquia de opressão.”

LORDE, Audre. Não existe hierarquia de opressão.

 

Antes mesmo do termo interseccionalidade ser cunhado por Kimberlé Crenshaw na década de 80, muitas feministas negras já demarcavam como as opressões se entrecruzam dentro de um indivíduo. Especialmente, mulheres negras lésbicas, como Audre Lorde que desde os anos 70 (outras, muito antes) apontavam o sexismo e a LGBTfobia dentro do movimento negro ou o racismo e a invisibilização das mulheres lésbicas no próprio movimento LGBT.

Uma das grandes expressões da luta anti-racista e anti-lesbofobia nos Estados Unidos foi a organização DARE: Dykes Against Racism Everywhere ou, em tradução literal, sapatonas contra o racismo em todos os lugares. Fundada em fevereiro de 1980 como resposta ao chamado do John Brown Anti-Klan Committee, organização anti-imperialista de combate aos grupos que pregavam a supremacia branca, como a Ku Klux Klan, além disso, a organização apresentava fortes denúncias sobre brutalidade policial em seus panfletos. Um dos principais confrontos entre o Anti-Klan e os grupos defensores da supremacia branca ocorreu na Gay Pride Parade em 1986 na cidade de Chicago.

Dessa forma, o DARE irá surgir dentro do contexto das lutas dos movimentos negros estadunidenses vs. supremacistas brancos na década de 80. De acordo com o panfleto da organização, após a mobilização chamada pelo Anti-Klan, as mulheres lésbicas decidiram tomar a questão do racismo como central dentro das suas lutas:

 

“Uma das razões pela qual escolhemos focar no racismo é que o enxergamos como central na maneira como os Estados Unidos funciona. O desenvolvimento e as riquezas dos Estados Unidos sempre teve como base a exploração das pessoas do Terceiro Mundo.” Panfleto do DARE.

Na coletânea de textos Black Women Writers at Work, Audre Lorde analisa o DARE como um dos movimentos mais importantes na aliança entre grupos oprimidos. Para ela, é necessário que reconheçamos que não existem mais ‘problemas’ isolados. Isso será reforçado em seu texto Não Existe Hierarquia de Opressão, onde a autora nos mostra que um caso de LGBTfobia não é apenas uma questão do movimento LGBT, mas algo a ser debatido pelo conjunto daqueles que lutam contra qualquer forma de opressão.

Referências:

LORDE, Audre. Não existe hierarquia de opressão.

Audre Lorde. Black Women Writers at Work. Ed. Claudia Tate. NY: Continuum, 1983.

Panfleto DARE

 

  • Publicado Originalmente no Medium em 02/05/2017

21 anos, mulher negra amazônida e sapatão, graduanda de Ciências Sociais da Universidade Federal do Pará e ativista da Rede de Mulheres Negras.

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