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“A alma do ser humano mudou quando surgiu o espelho.
Rubem Fonseca – Pequenas Criaturas. Cia das Letras.

“A injúria me faz saber que sou alguém que não é como os outros, que não está na norma. Alguém que é viado [queer]: estranho, bizarro doente. Anormal.”
Didier Eribon – Reflexões sobre a questão gay. Cia de Freud.

Preconceito é feito testa. Todo mundo tem, mas só se vê a do outro.
Sabe por quê? Porque quando é nosso, temos acesso a todo um universo de justificativas que tenta transformar nosso “preconceito” em “opinião”.
Quer ver? Quando você diz, feliz, fofa e querida ‘cazamiga’, que você não tem nenhum preconceito, mas que “os bofes e as bichas pão com ovo mancham a reputação da galera toda, atrapalhando a aceitação”… cara, sinto, lamento e choro… mas você além de ser preconceituosa, é loroteira [e bem desinformada].
“Não é preconceito, é opinião!”
Não, linda. Opinião é quando você tem uma idéia a respeito do sujeito. Preconceito é quando esta idéia agride, reduz ou desqualifica o tal sujeito, em comparação com os demais humanos que você considera bacanas, legais, invejáveis ou, no mínimo, que não saem manchando nada por existirem.
“O preconceito só existe porque existem homossexuais, a culpa é deles!”
Isto é maomeno como pensar que sua irmãzinha de 8 anos que está brincando de bicicleta pode e deve ser estuprada por um pedófilo, porque se não existissem menininhas , os pedófilos não fariam nada. Culpa das menininhas!
Faz sentido, não é?
Não.
Culpar a vítima pela agressão que ela sofre é também uma forma de dizer que ela merece ser excluída e violentada em seus direitos. Ela é menos humana que o sujeito que exerce a violência sobre ela.
Generalizando, a diferença entre opinião e preconceito é a capacidade de raciocínio do dono dos dois. Se você é capaz de analisar suas opiniões para além de si [seu umbigo pode ser lindo, mas não é o centro do mundo, ok?], pensando numa esfera social, pode perceber as implicações que suas opiniões terão sobre outras pessoas e sobre a sociedade. Desta forma, discerne aspectos preconceituosos nas suas opiniões etem a oportunidade de se propor a reestruturar sua visão de mundo. Mudar, inovar, crescer, talicoisa… e deixar de ser preconceituoso, claro.
A beeeem grosso modo há dois grandes motivos para o preconceito: vivemos em sociedade e somos uma espécie de classificadores.
Humanos criam classificações para tudo. Faz parte do nosso processo de compreensão da existência. Teoria dos conjuntos: tudo será devidamente agrupado e classificado de acordo com critérios x, y e z. Depois que eu descubro que tem ‘eu’ e ‘não eu’, percebo mais cedo ou mais tarde que ‘não eu’ abrange muita coisa, humana ou não. Aí crio categorias de ‘não eu’… e por aí vai.
O que as estruturas sociais fazem com as classificações é cristalizar grupos e verticalizar tudo, associando valores como ‘certo’, ‘importante’, ‘normal’. Cristaliza porque ‘congela’ os critérios e as classificações, estão prontos, não podem ser mudados. Adeque suas classificações a estas para existir pacificamente no coletivo ou será atirado a uma das categorias de baixo. Verticaliza porque determina uma classe como a certa, a melhor, a normal e as demais seguem abaixo dela, em escala de ‘menor valor’ que esta – erradas, piores e anormais.
“opa, mas quem são estas estruturas sociais?”
A classe [ou classes, depende da classificação] dominante. Dominar é algo precisa ser feito desde a mais tenra idade. Dominamos as músicas que bebês podem ouvir nas barrigas das mães. Dominamos inclusive como os bebês vão parar ali dentro e se têm o direito de ficar ou não. Dominamos as roupas que usarão, criando a classificação heteronormativa e seus desdobramentos [meninos de azul, meninas de rosa] e estendemos isto para o infinito e além [brincadeiras de meninos, livros de meninos, esportes de meninos, trabalho de meninos, papel de marido, pai, avô, cadáver…].
Tudo é repleto dos conceitos classificatórios e das verticalizações. Tudo. Não se iluda.
O bullying nada mais é que a aplicação do princípio da desqualificação verticalizada do diferente – da desqualificação do sujeito que não faz parte de determinada ‘normalidade’. Ele é gordo, magro, feio, nerd, gay, preto, pobre, qualquer característica que, de um jeito ou de outro, o exclua do ideal de normalidade do grupo, pronto. Ele é alvo.
Então, quando você manifesta sua opinião dizendo que pessoas diferentes de você detonam a aceitação do grupo, pense de novo. Analise melhor. Pare de fingir que você é igual. Você é diferente, na verdade. Você é gay. Pessoas te desrespeitam porque não aceitam o fato de você colar velcro, queimar rosca e afins. O fato de você usar roupa de menina ou de menino só te deixa mais ou menos visível para os agressores. Mas não é com sua roupa que tem preconceito, nem com seu gesticular. É com o fato de você não ser heterossexual e tudo que advém disto.
Talvez você mude sua perspectiva se começar a pensar além do umbigo, do raciocínio simples de normalidade que todo mundo te vende o tempo todo.
Não é culpa do bofe e da bicha pão com ovo que o povo ‘não aceita gays’. É culpa do preconceito alheio. Da ignorância em perceber que a igualdade humana não quer dizer que todo mundo deve ser idêntico.
Igualdade humana é o direito de ter sua diferença respeitada. A sua e a de todo mundo.

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